Isolamento Social: Um Desafio Coletivo
A Associação NÓS promoveu as suas V Jornadas Técnicas no dia 22 de maio, este ano dedicadas ao tema “Desafios do Isolamento Social – Construindo a FelizCidade”. O dia de trabalhos reuniu técnicos, dirigentes, parceiros institucionais e membros da comunidade numa reflexão profunda sobre o isolamento social e os caminhos possíveis para o combater.
Entre as intervenções dos oradores da manhã e a dinamização de workshops no final da tarde, as V Jornadas Técnicas da NÓS permitiram discutir algumas questões centrais em torno do Isolamento, tais como: O que é estar só? Quando é que a ausência de relação leva ao isolamento? Qual a importância dos vínculos físicos e emocionais nas diferentes fases da vida? Como se chega a uma situação de doença mental que tenha a solidão como sintoma? Que papel tem a comunidade e as instituições na prevenção? Questões deixadas em cima da mesa e para as quais se levantaram exemplos de projetos e intervenções no terreno no país, como o Projeto ‘Abraça a Cidade’ que a Associação NÓS apresentou ao público destas Jornadas com um vídeo de beneficiários do Projeto que testemunharam na primeira pessoa.
O momento de debate moderado pela jornalista conterrânea Filomena Barros reuniu oradores da manhã e várias figuras convidadas do panorama regional e nacional. Para iniciar o momento, Humberto Candeias, Diretor-Geral da Associação NÓS, afirmou que “é sempre momento de intervir e de começar”, reforçando a importância de acreditar na mudança e no papel ativo das organizações e dos seus profissionais.
O Cardeal D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, destacou a necessidade de evitar abordagens padronizadas ou “chapas 5” na intervenção social. Sublinhou ainda a importância de respeitar a experiência dos técnicos no terreno e de valorizar todas as pessoas que integram as estruturas organizativas. Deixou um agradecimento pelo trabalho e empenho das instituições presentes, afirmando que “as questões da deficiência e da saúde mental são das mais profundas”.
Logo após, Janete Maximiano, Psicóloga e Psicomotricista do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (HFF), reforçou esta visão com um apelo claro: “Como técnicos somos treinados para cuidar do outro, mas devemos fazê-lo de forma genuína”. Para a psicóloga convidada, não podemos continuar a olhar para estas questões como responsabilidade de uns quantos. “O isolamento social é um problema de todos nós (cidadãos e profissionais) e a solução também começa em cada um de nós”.
Henrique Joaquim, Coordenador Nacional da ‘NOVA ENIPSSA 2025/2030’, defendeu uma intervenção centrada na pessoa, promovendo a prevenção e a atenção precoce aos sinais de risco. Por sua vez, Ricardo Valente Santos, Psicólogo e Gestor de Projeto da ‘Plataforma Saúde em Diálogo’, apontou a importância de criar pontes com a saúde e dotar as pessoas de ferramentas e confiança para pedir ajuda, destacando também as dificuldades específicas de mobilidade e isolamento em comunidades rurais.
Mauro Oliveira, Delegado de Saúde do Barreiro, identificou como grupos de maior risco crianças, idosos, pessoas com doença mental grave e imigrantes, sobretudo aqueles que enfrentam barreiras linguísticas. Sublinhou que a identificação precoce e o trabalho em rede com entidades locais, forças de segurança e escolas são essenciais para prevenir situações de exclusão.
A perspetiva clínica foi trazida por Gil Santos, Psiquiatra da Unidade Local de Saúde do Arco Ribeirinho, que defendeu a desconstrução do paternalismo médico e o envolvimento ativo da pessoa no seu processo de recuperação, alertando ainda para o estigma: “Dizemos ‘pessoa esquizofrénica’, mas não dizemos ‘pessoa hipertensa’. A linguagem molda o olhar social sobre a saúde mental.”
Na vertente política e estrutural, José Carlos Batalha, Presidente da Assembleia Geral da Confederação das Instituições Particulares de Solidariedade Social (CNIS), defendeu uma maior valorização do papel das IPSS no desenho das políticas públicas: “O Estado autárquico e as instituições estão mais próximos da realidade. Não podemos continuar com fatos feitos à medida; as respostas devem ser moldadas pelas necessidades reais das comunidades”, realçou também enquanto Presidente da UDIPSS de Lisboa.
Isolamento entre os jovens aumenta: o que fazer com «os idosos do futuro»?
O futuro das novas gerações foi também tema em destaque. Enquanto o Bispo de Setúbal expressou uma visão pessimista quanto à influência da “bolha digital” nos jovens, Henrique Joaquim contrapôs com esperança: “Hoje temos respostas que não existiam há cinco anos. Vamos continuar a ter coragem, a olhar para a pessoa como solução e não só como alguém com necessidades.”
Mauro Oliveira, por sua vez, apelou a uma maior regulação europeia sobre o uso de redes sociais por menores e frisou o papel essencial da família: “Os pais devem ser exemplo, jogar com os filhos, partilhar tempo e presença”, considerou o Delegado de Saúde do Barreiro.
Numas Jornadas abertas pelo Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, Frederico Rosa, e encerradas pela Coordenadora do Gabinete de Intervenção Social, Saúde e Habitação do Município da Moita, Isabel Taveira, não faltou a presença do Centro Distrital da Segurança Social de Setúbal, na pessoa da respetiva diretora Maria Luísa Ferreira Malhó.
A concluir esta iniciativa, a responsável distrital destacou o valor das relações humanas, destacando “o amor e o riso” como dos “maiores contributos nas relações interpessoais”. Deixando um apelo claro de que combater o isolamento social é uma responsabilidade de todos, conjugando “esforços individuais e de parceiros em prol de uma sociedade conectada, solidária e inclusiva”, Maria Luísa Ferreira Malhó anunciou que estão a ser criadas “respostas inovadoras no distrito de Setúbal para pessoas idosas, enquanto espaços de encontro que promovem o bem-estar”. “A melhor rede social ainda são as relações diretas entre todos nós”, sublinhou a diretora do CDSS Setúbal, encerrando as V Jornadas Técnicas da NÓS que decorreram na Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, com os apoios também do McDonalds do Barreiro e da Câmara Municipal do Barreiro.






















